Sempre foi firme convicção da igreja de Jesus Cristo que a alma continua a viver depois da sua separação do corpo.
b.1 As Diferentes Conotações do Termo “Imortalidade”
Numa discussão da doutrina da imortalidade, deve-se ter em mente que o termo “imortalidade” nem sempre é empregado no mesmo sentido. São indispensáveis certas distinções para evitar confusão, vejamos algumas destas:
i. No sentido mais absoluto da palavra, só se atribui imortalidade a Deus (I Tm 6:15). O sentido evidente deste texto é que Deus é o único ser que possui imortalidade “como uma qualidade original, eterna e necessária”. Seja qual for a imortalidade que se possa atribuir a quaisquer criaturas suas, é dependente da vontade divina, é-lhes conferida, e, portanto, teve um começo.
ii. A imortalidade, no sentido de uma existência continuada ou sem fim, também é atribuída a todos os espíritos, a alma humana inclusive, no sentido em que, quando o corpo é dissolvido, a alma não comparte a sua dissolução, mas retém a sua identidade como um individual.
iii. Ainda, o termo “imortalidade” é empregado na linguagem teológica para designar o estado do homem no qual ele está inteiramente livre das semente da decadência e da morte. Neste sentido o homem era imortal antes da queda.
iv. Finalmente, a palavra “imortalidade” designa, especialmente na linguagem escatológica, o estado do homem no qual ele é impérvio à morte e não tem a mínima possibilidade de se tornar sua presa. Neste supremo sentido da palavra, o homem não era imortal em virtude da sua criação. Esta imortalidade seria o resultado, se Adão tivesse cumprido a condição da aliança das obras, mas agora só pode resultar da obra de redenção, quando se completar na consumação.
b.2 O Testemunho da Revelação Geral
Os argumentos históricos e filosóficos em prol da imortalidade da alma não são absolutamente conclusivos, mas certamente são testemunhos importantes da existência continuada, pessoal e consciente do homem. São os seguintes:
i. Argumento Histórico: O consenso dos povos é tão forte com relação à imortalidade da alma, como com referência à existência de Deus. Em geral se pode dizer que a crença na imortalidade da alma se acha em todas as raças e nações, não importa seu estágio de civilização. E, uma noção tão comum só pode ser considerada como um instinto natural ou como algo envolvido na própria constituição da natureza humana.
ii. Argumento Metafísico: Na morte a matéria se dissolve
iii. Argumento Teleológico: A impressão que se tem é que os seres humanos são dotados de capacidade quase infinitas que nunca se desenvolvem plenamente nesta vida. Portanto, Deus deve ter providenciado uma existência futura, na qual a vida humana alcançará fruição real.
iv. Argumento Moral: A consciência humana atesta a existência de um governante do universo que exerce justiça. Todavia, as exigências da justiça não são satisfeitas na presente vida. Daí, deverá haver um futuro estado de existência no qual a justiça reinará suprema e as desigualdades do presente serão retificadas.
b.3 O Testemunho da Revelação Especial
Para maior segurança nesta matéria, é necessário dirigir os olhos da fé para a Escritura Sagrada. Ela fala de Deus como o único que tem imortalidade (I Tm 6:15), e nunca afirma isso a respeito do homem. Não há nenhuma menção explícita da imortalidade da alma, e muito menos qualquer tentativa de provar isso de maneira formal. Mas, mesmo que a Bíblia não afirme explicitamente que a alma do homem é imortal, e não procure provar isso de maneira formal, como tampouco procura apresentar prova formal da existência de Deus, não significa que a escritura o negue ou o contradite ou o ignore. Ela pressupõe claramente que o homem continua sua existência consciente após a morte. Ela trata da verdade da imortalidade de modo muito parecido ao modo como trata da existência de Deus, isto é, ela o pressupõe como um postulado incontestável. Tanto o Velho testamento como o Novo Testamento comprovam a doutrina da imortalidade, vejamos:
i. No Velho Testamento: A revelação de Deus na Escritura é progressiva e aumenta gradativamente em clareza; e é evidente que a doutrina da imortalidade, no sentido de uma vida eterna e bem-aventurada, só poderia ser revelada em todos os seus aspectos depois da ressurreição de Jesus Cristo, que “trouxe à luz a vida e a imortalidade”. Mas, embora tudo isso seja verdade, não se pode negar que o Velho Testamento dá a entender a existência continuada e consciente do homem, quer no sentido de uma pura imortalidade ou sobrevivência da alma, quer no de uma bem-aventurada vida futura. Isso está implícito nos seguintes pontos:
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ii. No Novo Testamento: No Novo Testamento, depois que Cristo trouxe à luz a vida e imortalidade, naturalmente as provas se multiplicam.
* A sobrevivência da alma. Que as almas dos crentes sobreviverão, vê-se de passagens como Mt 10:28; Lc 23:43; Jo 11:25,26; Jo 14:3; II Co 5:1. E o mesmo se pode dizer das almas dos ímpios (Mt 11:21-24; Mt 12:41; Rm 2:5-11; II Co 5:10).
* A ressurreição pela qual o corpo também é levado a participar da existência futura. Esta ressurreição é ensinada em Lc 20:35,36; Jo 5:25-29; I Co 15; I Ts 4:6; Fp 3:21. A ressurreição dos ímpios é mencionada em Jo 5:29; At 24:15; Ap 20:12-15.
* A vida bem-aventurada dos crentes, na comunhão com Deus. I mortalidade dos crentes não é uma simples existência sem fim, mas uma encantadora vida de felicidade na comunhão com Deus. Dá-se clara ênfase a isso em passagens como Mt 13:43; Mt 25:34; Rm 2:7,10; I Co 15:49; Fp 3:21; II Tm 4:8; Ap 21:4; Ap 22:3,4.
b.4 Objeções à Doutrina da Imortalidade Pessoal
A crença da imortalidade da alma sofreu declínio com a influência de uma filosofia materialista. O principal argumento contra ela foi forjado nas oficinas da psicologia fisiológica, e corre mais ou menos como segue: A mente ou a alma é simples produto ou função da atividade cerebral, exatamente como o fígado é a causa produtora da bílis. A função não pode persistir quando o órgão decai. Quando o cérebro deixa de agir, o fluxo da vida mental pára.
b.5 Modernos substitutos da doutrina da imortalidade pessoal
O desejo de imortalidade está implantado tão profundamente na alma humana que, mesmo os que aceitam os ditames de uma filosofia materialista, procuram algum tipo de substituto para a rejeitada noção da imortalidade pessoal da alma. Sua esperança quanto ao futuro assume uma das seguintes formas.
* Imortalidade racial: nesta o indivíduo continuará a viver nesta terra em sua posteridade. Mas, a idéia de que o homem continua a viver em sua progênie certamente não faz justiça aos dados da Escritura, e não satisfaz aos anseios mais profundos do coração humano.
* Imortalidade de comemoração: cada qual deve ter em vista fazer alguma coisa para estabelecer um nome para si mesmo e que passe para os anais da história. Contudo, isso também fica aquém da imortalidade pessoal que a Escritura nos leva a esperar. Além disso, é uma imortalidade da qual apenas uns poucos participam.
* Imortalidade de influência: Se o homem deixar sua marca na vida e realizar alguma coisa de valor duradouro, sua influência continuará por muito tempo depois de sua partida.

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